Estava frio, muito frio mesmo, e não queria levantar da cama.
Olhei pela janela e o sol dava seus primeiros sinais de que já estava na hora de aparecer.
Fazem pouco mais de 8 meses mas eu ainda lembro -e provavelmente vou sempre lembrar- daquela manhã de segunda-feira, com muita clareza.
Eu não queria levantar, estava assustado. Mesmo eu tendo medido minuciosamente todos os meus passos e minhas palavras para aquele dia, o medo assolava cada parte do meu corpo. Levantei.
Arrumei minha mochila, fiz minha higiene, um rápido café e corri pra parada do ônibus, cuidando pra não acordar ninguém dentro de casa. Devia ser em torno de 5:00 am. Muito cedo, porém eu, logo eu, não tinha mais sono algum.
Já sabia o caminho, desci na Assis Brasil, peguei o T1 e desci na Ipiranga, na segunda parada após a PUC. Logo o avistei. A vista da entrada era bem convidativa por sinal, um grande campo com grama bem verde, coberta pela geada ainda recente da noite que findava, porém os altos muros que o cercavam deixavam no ar uma certa dúvida para quem passava, dúvida essa que logo acabava quando, na parte superior central de um dos lados da muralha, avistava-se uma placa, uma simples placa de um metal qualquer:"CUIDADO. ÁREA MILITAR!''
Entrando, fui recebido por sujeitos fardados que me encaminharam com uma certa agressividade até uma fila localizada em frente a uma espécie de quiosque de madeira. Todos nesta fila tinham os nomes começados pela letra ''F''.
-Pronto Sargento, todos os concritos em forma.
-Ordene que eles se sentem no quisoque e já pode começar com as entrevistas.
-Sim, Senhor.
Procurando algum lugar para me sentar, percebi um certo desespero para se conseguir um lugar o mais para o fundo do quiosque possivel, assim, acabei por sorte, me sentando na última fileira de cadeiras.
Assim que todos nós sentamos, um homem muito bem fardado adentrou o quisque gritando sebe-se lá o porque. Ele era grande, largo e portador de uma voz tão grave e alta que eu jamais ouvira sequer parecida. E ele ali ficou gritando e nos dizendo que não servíamos para as Forças Armadas e de alguma forma ele, depois de alguns minutos, nos abalou com aquela gritaria toda. De repente, acho que após observar o medo nos olhos dos concritos(era assim que eles nos chamavam), ele, então, se retirou.
Começavam as entrevistas. Individuais e demoradas. Eu seria um dos últimos a ser chamado.
Comecei a olhar em torno para perceber exatamente onde eu estava. Tinham muitos outros quiosques com muitos outros homens-meninos sendo amedontrados e depois entrevistados. Fiquei sabendo mais tarde que eram quase 500 conscritos naquele dia.
Já tinha a notícia de que quem na sua entrevista comunicasse que não queria servir não incorporaria. Assim eu já tinha tudo planejado. Não iria servir. Havia combinado com meu pai que começaria a trabalhar realmente com ele. Ele pagaria minha carteira de habilitação e eu ajudaria fazendo umas entregas que ele nescessitava que alguem o fizesse. Bom...comecei a imaginar no mesmo momento a facilidade que seria, eu iria acordar tarde todo dia, ficaria no PC e de vez em quando sairia para fazer as tais entregas. Só que uma coisa aconteceu...
Como praticamente tudo na minha vida, eu sempre demorei muito a entender o que acontece na minha volta. Sempre foi assim, com meus amores-desamores, vocação para algumas coisas que nunca imaginei que tivesse e também para algumas percepções que as pessoas tem de ter sobre si mesmas. Todo esse tipo de situação eu percebo sempre de uma hora para outra, graças a Deus, nunca foi tarde de mais. É como se um raio me atingisse ou um anjo me tocasse e, de repente, tudo fica muito claro aos meus olhos, coisas que antes eu não percebia. E naquela manhã fria não foi diferente. Foi como se alguem gritasse no meu ouvido o erro que eu estava prestes a cometer. E então a mais ou menos 10 minutos de me chamarem para a entrevista, liguei pro seu Jeferson e disse:''- Pai, vou servir!''
Ele não ficou triste, mas, como ele sempre fez a minha vida toda, ele disse que me apoiaria na decisão que eu tomasse, seja ela qual fosse.
A questão é: eu percebi que se eu dissesse ''não'' para o quartel, eu estaria fazendo a mesma coisa que eu fiz a minha vida inteira, escolhendo o caminho mais fácil, o que exigisse menos de mim. No fundo, eu sabia que não ia me esforçar trabalhando com meu pai, sabia que trabalhando em casa eu não evoluiria e, felizmente, eu tinha a consciência que precisava sofrer um pouco pra acorda pra vida e dar mais valor pra ela. Hoje eu tenho a certeza que a decisão foi a correta.
Faltam dois meses pra me darem a minha baixa do 3º Regimento de cavalaria de Guarda, vulgo Regimento Osório. Não quero seguir carreira. Não nasci pra ser militar. Porém o que eu aprendi, o que passei, vai permanecer em mim pra sempre.
Nesse último ano, algo mudou em mim, alguma coisa muito profunda e que não vai deixar eu voltar a ser a mesma pessoa que eu era. Não to dizendo que quem pára pra conversar comigo percebe mudanças. Não. Porque o que é essencial está invisível para os olhos.
domingo, 23 de março de 2008
quarta-feira, 19 de março de 2008
Angústia
Primeira vez que estou escrevendo aqui.
Não sei bem o motivo de eu ter criado um blog.
Só sei que eu estava vendo umas fotos minhas do tempo da escola, fotos bem antigas, primeiras séries do Ensino Fundamental, e então resolvi ver o DVD da minha formatura... um sentimento ruim tomou conta de mim, era Saudade. Não necessariamente da escola e da convivência diária com os amigos, é claro que era um pouco disso também, mas acho que era mais a falta do que eu sentia naquele tempo.
Faz quase um ano e meio que eu me formei e agora eu sinto que eu preciso dar o "próximo passo", com urgência, pra evitar danos maiores pra minha vida...acho que desabafar um pouco aqui o que eu sinto e o que eu passo no meu dia-dia pode me ajudar a acabar com essa angústia e, provavelmente, me auxiliar a conhecer melhor a mim mesmo.
Não sei bem o motivo de eu ter criado um blog.
Só sei que eu estava vendo umas fotos minhas do tempo da escola, fotos bem antigas, primeiras séries do Ensino Fundamental, e então resolvi ver o DVD da minha formatura... um sentimento ruim tomou conta de mim, era Saudade. Não necessariamente da escola e da convivência diária com os amigos, é claro que era um pouco disso também, mas acho que era mais a falta do que eu sentia naquele tempo.
Faz quase um ano e meio que eu me formei e agora eu sinto que eu preciso dar o "próximo passo", com urgência, pra evitar danos maiores pra minha vida...acho que desabafar um pouco aqui o que eu sinto e o que eu passo no meu dia-dia pode me ajudar a acabar com essa angústia e, provavelmente, me auxiliar a conhecer melhor a mim mesmo.
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